O “Morro” entrevista o arquiteto que começou a construir João Monlevade! Por Marcelo Melo

Na fotografia acima o arquiteto odilon Junqueira Júnior e sua filha, durante a entrevista que nos concedeu em sua residência, no Bairro Aclimação, em março de 2019. Infelizmente, Odilon faleceu em 2020, deixando cinco filhos e netos e uma história de obras em João Monlevade

Natural de Além Paraíba, município da Zona da Mata mineira, vindo de uma família de seis irmãos, o arquiteto e urbanista Odilon Junqueira Júnior completa seus 79 anos em novembro deste ano, mais da metade deles vividos em João Monlevade. Afinal, tão logo formou-se em Arquitetura pela UFMG, no ano de 1970, aportou em Monlevade poucos meses depois, precisamente em fevereiro de 1971, convidado pelo então prefeito Antônio Gonçalves (Pirraça), eleito em seu 1º mandato, para assumir como diretor de Obras, num município que ainda estava na sua 1ª infância, e que completaria seu 7º ano de emancipação político-administrativa. Isto sem que ele e o prefeito “Pirraça” se conhecessem pessoalmente. Tudo ocorreu através de uma indicação do urbanista Radamés Teixeira, idealizador do 1º Projeto para execução do Plano-Diretor do município, e que tornou-se amigo de Antônio Gonçalves. Por essas coincidências e providências, Radamés havia sido professor de Odilon na Faculdade e, considerado um aluno exemplar, o famoso “CDF”, acabou indicando-o a Antônio para sua assessoria na área de Obras. O prefeito não pensou duas vezes e o convidou para ocupar o cargo, já que a cidade era carente de um profissional nessa área.

Assim começou a história de Odilon Junqueira Júnior em João Monlevade, e que ele nos relatou durante uma conversa em sua casa, bem descontraída e acompanhada de uma gelada e uma cangibrina – além de um delicioso empadão -, e que contou ainda com as presenças de sua filha Helga, do seu concunhado Geraldo Elias, do amigo José do Rosário Coimbra e do casal de amigos Eduardo Quaresma e Cida Pena. Ele chegou à terra estranha para enfrentar aquilo que seria um grande desafio em sua carreira profissional. Com um salário inicial de CR$ 2.900,00 (dois mil e novecentos cruzeiros mensais), o que, segundo ele, era um “salarão”, afinal, antes mesmo de se formar já lecionava em escolas de Belo Horizonte, cujo salário não passava de CR$ 200 cruzeiros ao mês. “Você imagina então! Mas a vida não era moleza, pois no primeiro ano pegava a estrada diariamente, entre Belo Horizonte e Monlevade. Havia me formado em Arquitetura, mas fazia um curso de Urbanismo ainda em BH. Estudava lá pela manhã e pegava serviço na Prefeitura ao meio dia e ia até 5 e meia da tarde. Voltava pra BH, onde lecionava no período da noite. Era meio artista e naquela época fazia a viagem com pouco mais de uma hora. Não havia tantos caminhões como hoje”. Uma pausa. Comentei: – Tá doido! Você corria muito (rs).

O Canal, o Posto de Saúde e as Escolas

No entanto, 1972 foi mais tranquilo, pois fixou residência em João Monlevade e, além de trabalhar como diretor do setor de obras da Prefeitura, dava aulas à noite na Faculdade. Além do mais, foi o ano em que ele conheceu sua cara-metade, Geralda Dias. Começaram a namorar em abril, o noivado veio em agosto e em dezembro casaram-se, e ela passou a assinar Geralda Dias Junqueira. Deste Matrimônio e deste lindo amor, vieram cinco filhos, sendo quatro homens e uma mulher, os dois últimos um casal de gêmeos. Infelizmente, Odilon enviuvou-se anos atrás, mas a família é de uma união muito forte e uma fé inatingível.

Mas, retornando ao ano de sua chegada a Monlevade para enfrentar o desafio de trabalhar em uma Prefeitura começando a engatinhar, apesar de, naquela época, ter a 4ª melhor receita entre os municípios de Minas Gerais, enfrentava os desafios de uma mão de obra qualificada, a imaturidade administrativa, entre outras questões. E ainda o espaço físico. O prédio da Prefeitura funcionava na Avenida Getúlio Vargas, esquina da Praça Sete (sua 1ª sede), onde está hoje a Secretaria Municipal de Educação, mas apenas no 1º andar do edifício. Conforme citou Odilon, ali funcionava um hotel e foi desapropriado ainda do governo do ex-prefeito Bio. “Tínhamos uma salinha onde funcionava nosso setor e outra para a parte administrativa. Mais nada. Tínhamos de trabalhar mesmo era na rua, executando as obras”, disse Odilon, quando ainda afirmou que neste 1º governo de Antônio Gonçalves nunca se viu tanta obra em João Monlevade.

“Uma parte do canal de Carneirinhos havia sido concluída pelo então prefeito Germin Loureiro. Nós executamos o restante da canalização do córrego, que foi da Rua Duque de Caxias até o Castelinho. Também construímos o 1º Posto de Saúde de Monlevade. Lembro-me que estávamos executando uma canalização no bairro Areia Preta, próximo ao morro do Julinho, quando um motorista da Prefeitura passou mal. Chegando ao Hospital Margarida ele não pode se atendido porque não trabalhava na Belgo-Mineira. Era assim. Foi quando disse ao Antônio que necessitávamos urgentemente de construirmos um Posto de saúde na cidade. E assim foi feito, e em poucos meses inauguramos o Posto, ali na Rua Duque de Caxias, que hoje chamam de Policlínica. Também construímos o Centro Educacional, a Escola Louís Ensch e também desapropriamos a famosa Casa de Irene (zona boêmia da época) para construção da EMIP. Os dois anos do mandato de Antônio Gonçalves foram um avanço no setor de educação e infraestrutura, e conseguimos avançar um pouco na área de saúde, mesmo diante das dificuldades, porque havia poucos médicos naquela época. Mas, em termo de obras, foi um marco”, ressaltou o arquiteto.

Início da Construtora Ferreira Júnior

Encerrado o mandato de Antônio Gonçalves, e vitória da Arena, oposição ao MDB de “Pirraça” e “Bio”, foi eleito prefeito de João Monlevade nas eleições municipais de 1972, o médico Lúcio Flávio de Souza Mesquita. Com isso, Odilon deixa o cargo, mas permanece na cidade, onde já estaria enraizado e com família, apensar do pouco tempo. Em sociedade com a esposa Geralda e o amigo Ari Ferreira, fundaram então a Construtora Ferreira Júnior – ativa até os dias de hoje -, e já no início de suas atividades a empresa vence licitações importantes, entre elas para a construção da EMIP – Escola Municipal Israel Pinheiro – no governo do prefeito Dr. Lúcio Flávio. Também construíram o prédio do Fórum de Rio Piracicaba, entre outras obras. No entanto, dois anos depois ele sai da sociedade, e logo depois seu amigo dos tempos de Prefeitura, David Rosevelt, acaba entrando como sócio na empresa. Odilon Junqueira cria seu próprio escritório de arquitetura e urbanismo e, após a vitória de Antônio Gonçalves nas eleições de 1976, ele retorna à Prefeitura como diretor do Departamento de Obras, em janeiro de 1977.

Aí, no 2º mandato, foi erguido o complexo onde está hoje instalada a Secretaria Municipal de obras (os serviços de terraplenagem tinham sido executados no governo do ex-prefeito Dr. Lúcio Flávio), o Terminal Rodoviário, dois blocos da EMIP, entre outras obras. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras durante este mandato, ainda assim o prefeito Antônio Gonçalves conseguiu assumir a maioria dos compromissos firmados, pela sua lealdade e pelo homem e administrador justo que sempre foi. “Era um político por excelência, muito honesto e sempre aberto ao diálogo. Tenho pelo Antônio Gonçalves um grande respeito e admiração e a ele serei sempre grato”, concluiu Odilon Junqueira Júnior.

Em 1982, Odilon deixou a Prefeitura e assumiu seu escritório, voltando ao setor público no ano de 1986, atendendo a convite do 1º presidente indicado para assumir a AMEPi – Associação dos Municípios do Médio Piracicaba -, Germin Loureiro, que havia sido inaugurada em 1995, com sede em João Monlevade. Ali fez vários projetos, onde ficou até 2010. Hoje, mesmo aposentado desde 1994, continua atuando em sua empresa de Arquitetura, e ativo na área de projetos, sendo um dos profissionais mais conceituados e requisitados em toda região.

Monlevade atual e o insucesso de seu Plano Diretor

Quem não se lembra de quando o ex-prefeito Antônio Gonçalves queria transformar a Avenida Getúlio Vargas em um calçadão, no trecho que compreende entre a agência da Caixa até a praça Sete? Isto no ano de 1977 e que, para a época, seria algo super contemporâneo. A ideia partiu precisamente do arquiteto Odilon Junqueira Júnior, copiando uma ideia do que havia visto em Curitiba, uma das cidades mais bem planejadas do país. Apresentou o projeto ao “Pirraça” e ele aceitou. Como forma de experiência, foram colocadas correntes no trecho da avenida, impedindo o tráfego de veículos. Seria um laboratório, mas imediatamente alguns comerciantes não aceitaram a mudança e chegaram a ameaçar o chefe do Executivo. Entraram com uma ação judicial e o juiz acabou deferindo o caso em favor dos lojistas e a ideia não chegou a ser colocada em prática. Infelizmente, avesso às mudanças, o projeto foi por água abaixo, e João Monlevade deixou de ser referência em se tratando de uma avenida onde os consumidores teriam um espaço para fazer suas comprar com tranquilidade, olhar as vitrines e os pedestres andar sem perigo.. Como ocorre hoje nos quarteirões fechados das ruas Rio de Janeiro e Carijós, em Belo Horizonte, ou da Halfed, em Juiz de Fora, entre outros lugares.

Também constava no Plano Diretor que as calçadas das lojas na Avenida Getúlio Vargas, área comercial de Carneirinhos, teriam um afastamento de 3 metros, mas por questões particulares alguns vereadores da época, que tinham planos de construir na avenida, foram contrários e hoje o que assistimos são pedestres e consumidores sendo obrigados a andar pelas calçadas irregulares (ou irem para as ruas), sem espaços nem mesmo para se olhar uma vitrine, além daquelas que foram construídas inclinadas e muitas com piso escorregadio. Outro detalhe importante é em relação à Avenida Wilson Alvarenga, construída na década de 1970. A proposta apresentada pelo arquiteto era para se construir a via com 30 metros de largura nas duas pistas na região de Carneirinhos (mesmo comprimento do trecho que passa pelo Baú), e não com 20 metros, como ocorreu. Fossem desapropriados outros imóveis na época (que eram poucos), o trânsito hoje seria bem mais humanizado, mas faltou visão de futuro. “O Plano Diretor de João Monlevade foi muito bem elaborado no papel, mas por omissão do poder público nunca foi respeitado”, concluiu o arquiteto Odilon Ferreira Júnior.

E hoje a situação não é diferente, conforme citou o próprio Odilon e o engenheiro civil Eduardo Quaresma, que também atuou como secretário de Obras no governo do então prefeito Germin Loureiro (1993/1996). A Avenida Castelo Branco, Bairro República, por exemplo, que prevê um afastamento de 5 metros, foi invadida pelos bares e outros estabelecimentos, que simplesmente tomaram as calçadas e jogaram os pedestres para as ruas. Outro exemplo de desrespeito às leis: um Projeto sancionado pelo então prefeito “Bio”, em dezembro de 1996, que obriga todos os prédios construídos na região de Carneirinhos a terem garagens, não é respeitado. No lugar das garagens – que só existem nos projetos – são construídas lojas. E olhe que até o Bairro Aclimação, aonde ainda se respeita a lei – já que é proibido construir casas com mais de 2 pavimentos – parece que a lei começa a querer fazer vistas grossas… E a fiscalização da Prefeitura? Ao Deus dará!

Assim caminha João Monlevade em sua área arquitetônica e civil, onde quem tem dinheiro “pode tudo” e quem não tem, mesmo agindo dentro da legalidade e se respeitando o Código de Posturas, tem de ter mais paciência que os outros. Saravá!

*Entrevista publicada na edição de nº 175 do jornal “Morro do Geo”, em março de 2019!

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